Parece que o “Brasa” não incendiou a torcida

Parece que o “Brasa” não incendiou a torcida

No universo do Branding, existe uma linha tênue entre a genialidade disruptiva e o temido “esforço excessivo” (o famoso try-hard). A nova coleção da Seleção Brasileira, assinada pela Nike para o ciclo da Copa de 2026, estacionou exatamente nesse cruzamento. O ponto de ignição? A tentativa de emplacar o apelido “Brasa” no coração do uniforme.

Como articulista que respira marcas, eu lhes digo: o problema não é o design. Esteticamente, a Nike entregou um trabalho primoroso. O retorno ao amarelo “Canário”, as texturas que remetem à malha de abadás de capoeira e o escudo que equilibra o feltro retrô com o silicone futurista são acertos técnicos de quem entende de heritage e performance. Mas Branding não é só sobre o que se vê; é sobre o que se sente e, principalmente, sobre o que se reconhece.

Canarinho. Amarelinha. Brasa?

O maior pecado de posicionamento aqui foi a tentativa de “top-down branding”. A designer da marca afirmou que “Brasa” é algo que se ouve nas ruas e estádios. O problema? O brasileiro médio — aquele que de fato frequenta a arquibancada ou o churrasco de domingo — discorda veementemente. Brasa pra ele é o que assa o churrasco, ponto.

Quando uma marca tenta “batizar” um movimento ou criar um apelido artificialmente, ela corre o risco de soar como aquele tio que usa gírias erradas para parecer jovem. O branding autêntico é um eco, não uma ordem. “Canarinho” nasceu da voz de Geraldo José de Almeida; “Amarelinha” nasceu do afeto popular. “Brasa”? Parece ter nascido em uma sala de reunião com ar-condicionado. Ao tentar forçar uma intimidade que não existe, a marca gerou estranhamento em vez de pertencimento.

“Brasil com S”

Por outro lado, não podemos ignorar os acertos de coragem. A introdução do logo Jumpman (da linha Jordan) no uniforme azul é um movimento de mestre para o mercado de streetwear. A Seleção deixa de ser apenas um time para se tornar uma love brand global de moda urbana.

O resgate do “Brasil com S” na narrativa visual também é um acerto estratégico. Em um mundo globalizado, reafirmar a identidade local contra a versão “exportação” (Brazil) cria uma conexão de orgulho nacionalista que a marca precisava recuperar. Os detalhes geométricos inspirados na nossa bandeira, escondidos na trama do tecido Aerofit, mostram uma atenção ao detalhe que valoriza o produto e justifica (ao menos para o mercado de luxo) os preços nada populares.

O Veredito

A polêmica do “Brasa” é uma lição valiosa: você pode ditar a moda, mas não pode ditar o sentimento. A tentativa de rejuvenescer a marca Seleção é necessária — o público jovem está desconectado do futebol nacional —, mas a linguagem precisa de organicidade.

Quero dividir uma lição que aprendi nos meus 45 anos de branding. Cultura de marca é o que ganha o jogo. O posicionamento pode ser MA-RA-VI-LHO-SO, o design primoroso, o influnecer ou embaixador perfeito, a mídia estrategicamente acertada, mas se seu time, trade e consumidor final não comprarem a ideia e não respirá-la, você não ganha o jogo, capice?

Quero terminar com uma provocação: se a bola entrar e o hexa vier, “Brasa” pode até virar grito e aí é um pulo para esta estratégia dar certo. Mas, por enquanto, a sensação é de que tentaram acender uma fogueira com fósforo molhado. A Nike acertou no visual, mas esqueceu que, o Brasil, bem, o Brasil é o Brasil e aqui tudo pode acontecer (ou nada).

Marcos Le Pera é palmeirense, pai da Belinha, casado com a Mara e torce para que sua marca dê certo.

 

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